A pequena rena havia perdido a mãe, e agora sozinha tentava sobreviver em uma floresta onde o perigo era constante. Assustada e tremendo de medo, saiu dos arbustos em que se escondera e foi para cima de uma pedra em campo aberto pensando que estaria segura, quis o destino que ela ficasse órfã antes de aprender a maioria das lições de sobrevivência.
A matilha sentiu seu cheiro a quilômetros de distância e iniciou a caçada. Cercaram a pequena rena sem nenhuma chance de fuga, de olhos pretos, enormes, e esbugalhados ela apenas olhou para a lua e viver seus últimos momentos. Os caninos dos lobos brilhavam sob o clarão da lua cheia assemelhando-se a pequenos punhais de prato, seus uivos aterrorizavam até presas adultas, imaginem a uma pobre e indefesa órfã.
Inesperadamente aconteceu um barulho nas folhas, fazendo com que o lobo alfa erguesse as orelhas pontiagudas e olhasse na direção do som. Eis que surgiu uma moça de vestido tão branco que parecia uma flor de lírio, ao aproximar-se da matilha, o lobo alfa dobrou-se sobre as patas dianteiras e os demais curvaram-se para reverenciar a visitante.
Fazendo um carinho no focinho da pequena rena, falou; é impossível estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas estou aqui para lhe proteger, e passando a mão sobre as costelas da rena fez nascer duas asas, e em seguida disse para ela voar rumo a lua, com sorte, talvez um dia ainda voasse em algum Natal para presentear crianças, com brinquedos e esperança.
Virou-se lentamente e a matilha já havia entrado na floresta, os lobos são tão enigmáticos quanto o tempo, talvez por isso existe a lenda de que eles não são aceitos nem no céu e muito menos no inferno, razão pela qual falam dos dois lobos interiores de cada pessoa, a dualidade e o segredo permanecerão por muitos milênios.
“O conhecimento é um farol na escuridão”
Antônio Lopes Bezerra