A tarde estava fria, e as gaivotas na areia procuravam as últimas refeições do dia. Alheio a luta pela sobrevivência daquelas pequenas aves, um homem caminhava lentamente rumo as marolas que quebravam de mansinho, nem parecia que eram oriundas do todo poderoso mar; sem pressa e conversando baixinho com o passado, ainda tinha sensibilidade de agradecer ao vento que lhe banhava com minúsculos grãos de areia, fazendo com que alguns deles ficassem presos as rugas de seu corpo.
Na proporção em que o sol se escondia as ondas cantavam mais forte, em uma sintonia ímpar desafiando qualquer regente do planeta Terra. De olhos fechados e mergulhado em um oceano de lembranças, tinha a impressão de que estava andando sobre as águas e avançava no imensurável mundo dos mistérios. Eis que algo tocou em seus pés, curvou-se e mergulhou a mão na água e pegou uma linda concha.
Olhou para o interior da mesma e viu que não existia mais vida dentro dela, lavou-a cuidadosamente para retirar a areia, e ao desemborcá-la teve uma enorme surpresa; o desenho de uma moça vestida de azul-céu, de tão perfeito tinha a aparência de uma arte feita em porcelana. A tradição de colocar a concha junto ao ouvido para escutar som do mar, fez que ele não fugisse desse costume; e ao aproximá-la ao ouvido, ouviu um riso conhecido, pressionou mais forte ainda para saber que não ouvira seus pensamentos, e aconteceu novamente.
Não foi possível segurar as lágrimas, sabia perfeitamente quem estava rindo, mas como aquele riso foi parar em uma concha, ficaria com os segredos do mar e nunca tentaria desvendá-lo. Pensou em ficar com a concha e levá-la como lembrança, não o fez, a pessoa que sorriu diria o seguinte: não quebre os encantos, devolva ao mar e agradeça o presente que recebeu.
De olhos fechados colocou lentamente a concha na água, e sentiu duas mãos finas e macias receber a mesma, ao abrir os olhos sentiu a água sair mansamente e formar-se uma gigantesca onda desaparecendo na imensidão das águas, deixando apenas um perfume no ar e a certeza de que reencontros são possíveis, como e quando, será muito relativo à nossa forma de amar.
“O conhecimento é um farol na escuridão”
Antônio Lopes Bezerra